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Arrancada é racha?

Cadu Moreira7 de julho de 2017
As discussões sobre as origens, essência e dinâmica do esporte tem se intensificado nos últimos dias na área de atuação do Velopark, graças a alguns acontecimentos que vocês vêm acompanhando aqui pelo 1320. De um lado estão os conservadores pilotos "profissionais" da arrancada tradicional brasileira, defendendo os carros-bomba a cultura do recorde e de outro estão os pilotos amadores representantes de uma nova contracultura, que buscam regras mais competitivas e um tipo de disputa mais acirrado, de maior apelo ao público.

As discussões sobre as origens, essência e dinâmica do esporte tem se intensificado nos últimos dias na área de atuação do Velopark, graças a alguns acontecimentos que vocês vêm acompanhando aqui pelo 1320. De um lado estão os conservadores pilotos “profissionais” da arrancada tradicional brasileira, defendendo os carros-bomba cultura do recorde e de outro estão os pilotos amadores representantes de uma nova contracultura, que buscam regras mais competitivas e um tipo de disputa mais acirrado, de maior apelo ao público.

É mais do que claro que a arrancada precisa passar por uma reforma total, para que possa se adequar a nova dimensão que os grandes organizadores que estão entrando no jogo querem imprimir ao esporte. Grandes dragways com estrutura de primeiro mundo requerem uma atendência de público condizente com o investimento dos organizadores e as inscrições de pilotos representam tão pouco nesse contexto, que já se tornaram uma renda não só dispensável, como muitas vezes efetivamente franqueada. A chave é o público: Sem ele, não há viabilidade comercial.

A discussão agora é: Que modelo será adotado para que se chegue ao sucesso da arrancada como esporte em franco crescimento? Carros correndo solitários em busca de um recorde, com apresentações bombásticas no bom e no mau sentido, ou pilotos imbuídos da firme determinação de levarem suas máquinas intactas até a última disputa, derrubando a cada etapa adversários que muitas vezes são mais poderosos que eles mesmos e erguendo-se ao final como grandes vencedores?

Com quem o público irá se identificar mais?

O irônico dessa discussão é que a cultura da arrancada amadora é apenas uma volta às raízes mais profundas do esporte, que remetem a um tempo em que não existia cronometragem ou recordes. Existiam apenas as rivalidades entre pessoas, oficinas, marcas… E essas diferenças eram resolvidas em ruas, estradas, aeroportos, desertos e, quando passaram a existir, pistas próprias para esse fim.

E então vem a chocante revelação, que a maioria dos representantes do pensamento quadrado e convencional tenta varrer para baixo do tapete, como se pudéssemos esconder do mundo a real origem das coisas: – A arrancada nasceu dos rachas de rua!

Então racha é arrancada? Arrancada é racha? O racha suja o nome comercial da arrancada? Ou será que já chegamos a um ponto tão surreal, em que a arrancada é que suja o nome comercial do racha?

A pergunta pode parecer absurda, mas eventos como o Racha Tarumã e o Racha Interlagos, além de incontáveis outros que ocorrem nos autódromos de todo o Brasil tem obtido grande sucesso de público através de uma competição simples, sem cronometragem onde chegar na frente é o que determina a vitória e ponto final, enquanto vemos provas tradicionais à beira da falência, pois não apresentam nenhum apelo ao público.

Essa discussão é deveras desgastante e embora só exista uma resposta com viabilidade comercial, talvez muitos pilotos ainda tenham os olhos e a mente voltados exclusivamente para um passado mais recente, onde a arrancada era uma mera diversão de pessoas que costumavam impressionar mais pelo equipamento importado do que pelos resultados em si e que não se contentavam sem receber os “mimos” dos organizadores.

O triste é que talvez ainda existam tantos representantes dessa cultura decadente, que seja impossível implementar a mudança, adiando, ainda que apenas um pouco mais, um futuro que não pode ser evitado. Criando desse modo uma “idade das trevas” da arrancada, onde existem todos os elementos para o sucesso, mas que por ignorância ou falha mútua das partes, jamais se combinam, criando um fracasso que pode até ter uma data para acabar, mas, guardadas as devidas proporções, cujas consequências podem ser tão nefastas como as agruras da própria idade média.

Tenho visto o Velopark trabalhar contra isso, do mesmo modo que os mecenas renascentistas trabalharam para dar fim a era medieval, incentivando uma nova cultura baseada nos valores mais essenciais do esporte, que por sua vez são os valores mais básicos da própria competitividade inerente ao ser humano: Vencer ou perder. E considero isso claramente como uma demonstração de visão de futuro, principalmente quando para isso é preciso enfrentar a resistência dos próprios pilotos!

E não, arrancada não é de maneira alguma racha de rua. Pessoas correndo como loucas por entre carros, motos e pedestres não estão praticando esporte, do mesmo modo que bruta-montes e criadores de tumulto de plantão não estão praticando esporte ao espancarem pessoas nas festas ou em brigas de trânsito.

Racha é crime, do mesmo modo que agressão é crime. E arrancada é esporte, do mesmo modo que boxe ou jiu-jitsu são esportes. Não se trata de fazer baderna nas ruas, isso está pra lá de fora de cogitação. O esporte é uma atividade que tem por objetivo despertar nas pessoas os valores da ética, da responsabilidade, do civismo e da educação. O principal papel social do esporte é representar justamente uma alternativa àqueles que em algum momento se desviaram do caminho da harmonia com os outros integrantes da sociedade.

Mas é justamente por isso, que o esporte precisa manter as pessoas interessadas, não podendo se tornar uma atividade por demais elitista, ou ainda pior: Uma atividade maçante, desinteressante, entediante. O esporte precisa manter o dinamismo da atividade que lhe dá origem. O esporte precisa manter a emoção. Não haverá lugar no mundo para um esporte de luta sem combate, do mesmo modo que não haverá sucesso para arrancada sem enfrentamento, pois essa é a própria essência do esporte.

Não, arrancada não é racha. A arrancada forma esportistas e o esporte forma melhores cidadãos. É algo mais elaborado, mais complexo e até mais excitante. Mas desde que não perca a ligação com suas raízes ao ponto de tornar sua dinâmica totalmente incompatível com a sua essência.

Fonte: http://1320ft.blogspot.com.br

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Cadu Moreira